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O leite dos ungulados

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poema de Aberto Lins Caldas o leite dos ungulados ● leite quente - leite podre - leite esperma - ● ● sangue no estrume - tropas de moscas - ● ● esperma rubro vindo das dores da noite - ● ● fria demais - q se enrosca entre dores - ● ● não espera - é so deserto escondido - ● ● porisso agarro o peito imenso q flutua ● ● como velho zepelim desgovernado - ● ● cheio de leite - gotejando como chuva - ● ● inverno - feridas me rasgam o peito - ● ● terei leite - terei uma noite - uma hora - ● ● quem sabe furtivo eu durma cheio ● ● do leite podre - leite sangue - dizendo - ● ● ?como dormir - ?como viver ● ● do imenso peito - mastigo o mamilo ● ● com dentes afiados - labios e lingua - ● ● quente o leite dos ungulados - ● ● ouvindo cascos baterem - ● ● afundando no estrume quente - ● ● alcateias de moscas ao redor - ● ● so a fome é mais quente ● ● q o leite dos ungulados - ● ● queimando labios e lingua - ● ● garganta e estomago - ● ● sem o leite dos ungulados ●...

O SUSTO DE ISAQUE

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poema de Adriane Garcia O SUSTO DE ISAQUE Este pai cujo filho pergunta: Papai, se as brasas e a lenha estão aqui, Onde está o cordeiro? Este filho, sabe-se, não é uma criança Mas ainda assim sobe com a brasa Ainda assim a lenha nos ombros Este pai cuja esposa, sua meia-irmã Chora, pois pressente, como se um demônio Sussurrasse: seu filho corre perigo Este filho obediente o bastante para abandonar Sua mãe, sem compreender suas lágrimas Para subir a montanha, no silêncio do pai Este pai cuidadoso para não revelar o seu plano Para não estragar a oferenda ao Senhor Que ensina a preferir um filho morto Este filho que aprendeu a não ousar Adestrado cotidianamente para aceitar Qualquer ato da autoridade do pai Este pai que já se vê voltando sem o filho Este filho que poderia ter sido um milagre Mas que se deixa amarrar, mesmo tendo forças Este pai que deita o filho sobre a pedra Este filho que ainda procura o amor do ...

A Mamadeirocalização da Leitura

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poema de Guellwaar Adún A Mamadeirocalização da Leitura à sombra do mandrake do povo um cão desacorrentado cancelou o ano novo tudo em nome da família e o calibre é um 3 oitão nos zapzaps dos Bíblia entre micos, entre gritos a emancipação dos burros a promoção dos malditos uma passagem sem revolta no harém das bananeiras nos ministérios das escoltas um mar de histórias acena enquanto pela janela a vida em plena gangrena a menina de cá atravessa a vida como ela é e o rio segue sem pressa revirando ventres, diários os guias, noticiários Macunaíma incendiário Lima Barreto, outros ausentes antes das novas fogueiras vaticinaram pelos ventos a queima de autores broncos é lamentável, é sem desculpa mas são quase todos brancos "Boca em fel dos tritões engasgada de pragas": pode reinar Mil e uma Noites de terror, mistério e mortes, o cão desacorrentado ainda que prisioneiros no castel...

Lacaio

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poema de Aldo Votto Lacaio dedicado a D. C. o palácio da felonia tem casa civil tem casa militar tem casa servil na casa servil há o sequaz há o limpa-botas há o imbecil há o que nada faz ali se guarda a escória ali está o podredouro o monturo, a bispotada o mosquedo, as varejeiras os chafurdeiros da História mesmo lá, na casa servil entre os piores, há o pior abaixo mesmo de fâmulos de aspones , de basculhos de candidatos a senescal com libré completa de douto lá, acolhido, está o pantólogo homo multarum literarum no conforto do seu valhacouto ali, sobranceiro no enxurdeiro obra, voluntarioso e diligente, festejado foliculário, pretensioso plumitivo aretino amanuense penhorado e lépido lacaio

a voz

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poema de Marcelo Martins Silva A voz A voz e o eco Vozes veladas, violentadas Em versos parcos Em nossas preces, Exu-Maria Cheios de graça, em carnaval De mil poetas Desencantados Pássaro branco, águas passadas Do Rio Guaíba, desse veneno Não és culpado Fecais ilustres, oh Coliformes Sobem à boca dos cidadãos Por isso dizem, nessa cidade Muita bobagem – não digo merda, porque poeta Pagão e casto Oh! Porto Alegre, jovem ignara Vejo-a de longe Ao sul dos Mares, ao sul do mapa Sempre de costas Oh! Porto Alegre São os teus olhos Azul-germano, cor de salame Que nem os peixes hão de comer Apaixonada, como Narciso Lá no fundo Desse lago que não é Rio

A partir desta data

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poema de Guido Votto A partir desta data estão proibidas absoluta expressa peremptória taxativa terminante mente [e cérebro] canções líricas crônicas de costumes piadas de papagaio aquarelas de paisagem comédias românticas danças de salão estão liberadas absurda espantosa delirante insana fanática [de] mente arengas belicosas preleções esquizofrênicas prédicas messiânicas pregações degeneradas lengalengas inescrupulosas revogam-se as predisposições em contrário. registre-se, publique-se e não se cumpra.

diante de ti

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poema de Ramon Carlos Diante de ti No mar que palpita os olhos, escarnece a alma Diante de ti, Em meio ao véu soturno Do primeiro sopro cardíaco da manhã Perpétuo O cheiro de abacate cortado Indignas Roseiras em caules mastigados Tiranos Psicopatas em cruzes de orvalho Diante de ti, Bigas transportando palhaços invisíveis Quimeras em estátuas de sal Maçãs nas teias de aranha O improvável mausoléu de heranças equívocas No mar que palpita os olhos, escarnece a alma Diante de ti, Godot na corda de Lucky Sabor dos cachimbos de plástico Colchões em pé no canto do quarto O amargo estampido no palato do fantoche As ruínas nas migalhas de janeiro Diante de ti, Sobremesas antes do jantar Nicotina em doses curativas Puxadores soltos nos parafusos Conservas vazias embaixo da pia No mar que palpita os olhos, escarnece a alma No mar que palpita os olhos, escarnece a alma Diante de ti, Túmulos em poses circenses Acrobata...