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AONDE VAMOS NESTA NOITE ESCURA?

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poema de Leonardo Antunes






AONDE VAMOS NESTA NOITE ESCURA?

Guiados sob a luz das viaturas,
com o peito insuflado em grito horrendo,
aonde vamos nesta noite escura?

Por todo lado assomam sepulturas
enquanto nós seguimos, num crescendo,
guiados sob a luz das viaturas.

Unidos não no amor, mas na tortura,
já não sei o que somos nem entendo
aonde vamos nesta noite escura.

Confiantes de ter real cultura,
espezinhamos leis e referendos,
guiados sob a luz das viaturas.

Quando foi que trocamos a ternura,
o amor e a compaixão por dividendos?
Aonde vamos nesta noite escura?

Impõe-se nova, exótica escritura:
não se pergunte, nem aos reverendos
guiados sob a luz das viaturas,
aonde vamos nesta noite escura.

amanhã

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poema de Victor Gonçalves







Wall Street, por Paul Strand




Amanhã



ainda que sob nevóas profundas vamos amanhã atrás de um albergue
o passo apertado incerto e recoberto das mais tristes decisões
e o passado na ponta da língua maldizendo:
será preciso no instante já do gesto interromper a clave
e no entanto é a paralisia o abandono de Minerva por nos sabermos pecadores
e no entanto é saber que já olhamos muito antes do gesto e de Orfeu para nossa ruína
e amanhã continua isso que se anunciará amanhã iniciou
e devidamente rascantes nos faremos curvos e com a digital nos renderemos



não vou dizer qual trajeto

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poema de Eduardo Sinkevisque






não vou dizer qual trajeto
queria para a faca
se apenas lâmina fosse
nem qual cabo tivesse.
o endereço abdominal
per si é abjeto, se não abominável.
vou dizer do refinado branco
do gorduroso embutido
e da tez de fiambre
de alguns da espécie.
quero bem ao padeiro,
e ao confeiteiro,
e ao chapeiro
assim como homens poetas
de industrias.
eles gemem Maiakovski.
eles poderiam entoar rosas dos povos.
quero bem aos delirantes,
e aos feirantes.
eles sabem que o amor
encontra-se em falta nos mercados.

Modos de usar com Maiakóvski

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poema de Adriane Garcia


[caligrama de Ronald Augusto]



Modos de usar com Maiakóvski



A nossa poesia
Ficou dentro da História 
Assim como dentro
Nossos dias amenos

Nosso passeio no parque
Nosso alívio em suspenso
Dentro da História 
Nossa pena e caderno 

Dentro da História 
Nossa porta e casa
Com tudo dentro
Inclusive a chave.

lugar de vala

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poema de Anelito de Oliveira







Lugar de vala [ou a crise da razão da vítima]



À memória de Flávio José Gonçalves, Antropólogo, Professor, Ativista Anti-racismo, Morto depois de um longo sofrimento advindo do racismo institucional na Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes)




- Talvez eu esteja enganado: Talvez eu esteja absolutamente enganado: Mais uma vez: Talvez eles sejam bons, justos e até santos: Talvez não sejam racistas: Talvez sejam absolutamente humanos: Talvez eu esteja sendo radical: Mais uma vez: Mais uma vez: Talvez eu esteja sendo radical demais mais uma vez: Talvez eu devesse entender tudo: Nada é pessoal: Tudo é legal: Eles apenas estão cumprindo a lei: Eles são exemplo de cumprimento das leis: Eles são corretos: Eles são sérios: Eles são honestos: Eles são puros: Eles têm uma conduta ilibada: Eles são muito justos, dignos e capazes: E – o mais importante – não são racistas: Não confundam as coisas: O fato de serem brancos é algo elementar: O fato de serem brancos não…

a academia esqueceu de deitar

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poema de Guellwaar Adún




a academia esqueceu de deitar                     (para Conceição Evaristo)


imortalizando princípios  da klan verdugo-amarela trinta e quatro  num chá dos cínicos crônicos pequenos fazendo caca na entrada fazendo caca na janela 
esqueceram de deitar 
e la nave va uma nave vã as uvas  permaneceram brancas
e la nave va
as uvas são falos broncos uns maribondos sem fogo uns moribundos sem gozo esqueceram de deitar
o rouxinol entoa um jazz sem arriscar ensinar como se canta aos pardais
pardais se apressam                                     corrigem o canto dos rouxinóis
se esqueceram 
nas ruas, a noite não adormece      nos olhos das mulheres Negras e no beco da memória faremos Palmares de novo

poema para marrom

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poema de Eduardo Sinkevisque






Poema para Marrom


Não se pode mais estar
nos mesmos lugares
que gente execrável está.


Não se pode mais respirar
o mesmo ar
que gente execrável respira.


Mas ela não estava apenas
no mesmo lugar.


Mas ela não respirou apenas
o mesmo ar.


Ela sambou e cantou.


Ela ainda convidou
para sambar e cantar
gente execrável
com quem não se deve sambar
nem cantar.


Gente execrável se tem que execrar,
oh vós, os super-nutridos
da execração nacional.