Postagens

a disparada do mulo

Imagem
poema de Aldo Votto






a disparada do mulo
I pelos pampas, mas quem diria? eis que disparou o mulo e como a tava de culo[1] o orgulho guasca[2] caiu. de lampo lembrei do meu tio honrado gaúcho de a pé que muito letrado não é mas que já pegou em fuzil II me ensinou o tapejara[3] lições para toda vida do valor do vermicida aos méritos de um ideal se tivesse colado grau é possível que soubesse usar a cedilha e o esse sem distinguir o bem e o mal III pois pelo que tudo indica hay gaúcho diplomado que quer votar num tapado[4]. não num flete[5] com tal pelo! mas no tal mulo modelo muar a quem chamam ‘mito’ e o sobrenome não cito pangaré do desmazelo IV mui metido a colhudo[6] não é mais que um rufiã

7 X 1

Imagem
poema da Aldo Votto






7 x 1
copa do mundo de novo e ainda
ontem foi aqui amarelo virou ouro em corpos de sempre com tudo para triunfar às sete pragas das germânias contudo o galalau se curvou
a primeira vaiou mulheres a segunda pateou pobres a terceira vituperou negros a quarta apupou índios a quinta enxovalhou gays a sexta esconjurou operários a sétima abjurou crianças
restou ilesa aquela uma
vaiada pateada vituperada apupada enxovalhada esconjurada abjurada
em todas vias
intacta inexorável impávida inelutável
a saber para contar a história ou para vencer a revanche:
a ideia

o trovador

Imagem
poema de Thaise Diaz




O trovador

Para meu pai, a possibilidade de uma poesia hereditária


O morto deixa uma lacuna inexata Manhãs costuradas na borda opaca desse abismo Reluz minha mão Gravada na sua testa fria Na feira deste sábado O sal da lágrima estraga as frutas E lava a praça do mercado Não há anúncio de vendas Nem haverá som de acordeom Na garganta Uma estenose invalida minha boca Agora sou outra

xirê

Imagem
poema de Matheus Pazos




XIRÊ

destrava minha língua
meu peito poroso invada
sou recife; ondas
não assustam

afugenta o silêncio
o grito não pode ser meu
quero outra voz
pra contorcer carvalhos
e correntes

leve & breve

Imagem
poema de Alex Ratts




leve & breve

agora tudo parece leve
e breve
depois de oitenta tempos

deve ser leve sempre
devia
o peso da carne, dos ossos, das ideias

não sei
sei lá
que seja
depois de oitenta voltas
que volte

tarde aprender

Imagem
poema de Cândido Rolim








tarde aprender
algo para que
jamais se mostrou
apto
pela única
razão de executar o
inimaginável
traço

lua à vista ou uma resposta a leminski

Imagem
poema de Guilherme Medeiros






lua à vista ou uma resposta a leminski

quanta ingenuidade, paulo, acreditar na mera dúvida sobre  a presença ou não  da luz sobre auschwitz a lua brilhava sobre auschwitz a lua brilhava sobre a Estácio a lua brilhava sobre cada labareda de carne viva queimada a lua brilhava sobre os ratos metidos nas mulheres da ditadura a lua brilhava sobre a Shoah, sim a lua brilhava sobre auschwitz a lua brilha hoje sobre o golpe a lua brilhou sobre os aplausos ao casamento real a lua brilhava sobre os navios lotados à todo custo de carne negra tomada para escravidão (mesmo que não coubesse sequer um feixe de luz que pudesse ser refletido pelas peles azuis, a lua brilhava) lua à vista dando contas de que a magnitude da natureza não se dobra diante da mais desastrosa barbárie humana não somos daqui e a lua continua a brilhar não estaremos mais aqui e a lua vai brilhar (sem contar o sol) vamos explodir em átomos à deriva sob a terra e misturados ao oxigênio  e a lua vai continuar brilhando a natur…